Londres, 19 de Fevereiro de 2020

“Combinado, amiga. Fica tranquila que te aviso quando eu chegar em casa”, disse em um espaço de um abraço. Foi rápido e despretensioso, como se fôssemos nos encontrar num futuro próximo — um abraço de “até já, daqui a pouco a gente se vê”. Nos entreolhamos e ela sugeriu que tirássemos uma foto. Respondi que era uma ótima ideia e enquanto eu ajeitava o meu cabelo, ela procurava o celular no bolso do casaco. Tiramos a foto e ela logo encaminhou para o nosso grupo de amigas no WhatsApp. Me despedi de novo e corri pra alcançar o ônibus e seguir rumo ao aeroporto.

Hoje faz quase cinco meses daquele abraço. Meu último abraço desde que essa “nova realidade” nos foi imposta — cinco meses com máscara e álcool-gel. Às vezes fico pensando nesse mundo “pós-pandemia” e acho esquisito pensar num mundo sem afago, abraço ou cafuné no cabelo. Não sei se sei viver num mundo assim. Realmente não sei. Em contrapartida, foram incontáveis os abraços virtuais que recebi durante esse período de distanciamento social. Eu, que sempre tive minhas ressalvas com as redes sociais, acabei encontrando nelas amizade, refúgio e colo. E por mais estranho que isso possa parecer, trouxe um conforto; um acalento nesses dias tão difíceis. Por esta razão, acho que os áudios longos devem ser vistos com outros olhos — de compaixão talvez. Durante esse período de distanciamento social, que as redes sociais sirvam para encurtar distâncias, dividir angústias e distribuir abraços — mesmo que virtuais.

I write what I cannot forget

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