Tempo, tempo, tempo, tempo

Ainda que eu tentasse supor, nada seria capaz de traduzir o que sinto agora. Absolutamente nada. Por mais que queiramos nos abster da finitude da vida, a morte está ali à nossa porta, como uma certeza inevitável.

Em meio à notícia do fim, as consequências para os que ficam são físicas. A dor, assim que diagnosticada, se dissemina feito metástase; destrói nossas barreiras, causando efeitos colaterais múltiplos e sistêmicos. No primeiro momento, há uma enorme descarga de adrenalina, que em poucos segundos, alcança o coração causando taquicardia. Há falta de ar e em poucos segundos, os canais lacrimais despejam uma cascata de lágrimas — são tantas que tocam o chão. Há, logo em seguida, um desequilíbrio momentâneo: os músculos posteriores da perna titubeiam. É preciso sentar, pois ninguém chora de pé. Em poucos minutos, a tristeza e a dor percorrem toda a circulação, atingindo todas as nossas células corporais. Esse ciclo se repete por um período e com intensidades diversas.

Por mais natural que possa parecer, para um filho, perder um pai é desalento e desamparo. Nada mais. É reflexão. É perceber a finitude dos que te rodeiam e, consequentemente, a sua finitude. Mas, é também, dar importância ao que realmente importa. É jogar fora o supérfulo. É valorizar o nosso bem mais valioso: o tempo.

I write what I cannot forget

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